Backup Linguístico

Há algum tempo, eu venho propagandeando no meu perfil no Facebook que eu sairia definitivamente daquela rede social. Desde que criei meu perfil em 2011, a minha relação com aquele ambiente é meio que de amor e ódio: o detestei quando surgiu, preferindo permanecer no Orkut por tanto tempo quanto possível (até que não foi mais sustentável – porque todo mundo migrou pro Fb), me viciei na rede social (a ponto de factualmente não conseguir sair da frente do computador nem pra comer durante um tempo da minha vida em que eu acredito ter ficado depresso), me mantive fora de lá por um ano, e, eventualmente tendo voltado, segui os passos de um bom amigo e deixei de seguir literalmente todos os meus amigos pra tentar perder menos tempo por lá. Nos últimos tempos, venho agoniado com a quantidade de “rastros” de informação que eu deixo por todo lado como usuário de uma centena de serviços eletrônicos e, sendo o Facebook e o Google os maiores malfeitores, venho tentando tomar medidas na direção de reduzir a dependência deles (aos poucos, nada muito dramático).

Antes de deletar o Facebook, porém, baixei todas as informações que o Facebook tinha (ou, pelo menos, dizia ter) sobre mim (qualquer pessoa pode fazê-lo). No meio desse monte de dados (foram quase 800Mb), eu achei algumas postagens que de alguma forma tinham a ver com o Português, que eu ainda assim gostaria de deixar escritas em algum lugar. Por isso, resolvi escrever essa postagem. Cada um dos items abaixo é o resultado de alguma postagenzinha que eu tinha compartilhado que eu achei interessante de alguma forma. Às vezes a postagem era em inglês, e aí aqui eu deixo uma versão “adaptada” ao Português…

Sobre kibe

(postagem original era em inglês)

Eu quero contar pra vocês sobre uma das minhas palavras preferidas da internet brasileira.

Depois da imigração Sírio/Libanesa nos anos 1930s, o “quibe” (nós normalmente escrevemos “kibe”) se tornou um prato comum no Brasil.

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Kibbeh

De alguma forma essa palavra adquiriu um significado diferente1: o de “ladroagem intelectual”, i.e., quando alguém reposta algo como se fosse algo novo criado por ele, clamando (com o objetivo de roubar) pra si o crédito pela invenção (que na real não é nova). Ambos o ato de roubar e o conteúdo roubado é geralmente chamado de “kibe”.

Essa palavra é tão comum que deu origem a “kibar” (um verbo) e “kibador”. Tudo isso é vocabulário normal, super mainstream, ao ponto que o nosso cartunista mais famoso já foi abertamente criticado pelos seus “kibes”.

Depois da postagem, algumas pessoas responderam sobre a história da palavra. Alguns sugeriram que a palavra tivesse dado origem ao nome do blog; mas, tendo consultado a Wikipédia, ela diz que o “Kibe” no nome é em referência à ascendência Médio-Oriental do criador.

O Wiktionary não tem uma entrada pra palavra kibe. Eu achei que seria legal registrar que, buscando por sites antigos com o nome da palavra, eu encontrei o seguinte site:

https://kibandoeandando.blogspot.com/2007/12/antnio-tabet-na-desciclopedia.html?m=1&fbclid=IwAR2kvK68QXWZ8tQkbvczHt_VTXqEvjnMy1N1hPks1BUGutK3rnUaXpoutvc

… que existe desde pelo menos 18 de Dezembro de 2007. Disso fica claro que a palavra existe há pelo menos uma década, e não parece ter mudado de significado de lá pra cá.

Sobre mene

Uma das minhas palavras favoritas em inglês ultimamente tem sido “mene”. “Mene” é uma piada que não é boa o suficiente pra se tornar um “meme”. Ironicamente, “mene” viralizou e existem até notícias (em Português, é claro) sobre eles ultimamente…

Denovo, entre os comentários, ficou dito que o site dos menes (uma página que posta menes) existe desde 2012 (algo que eu acho legal registrar, caso um dia suma).

De boa na lagoa

Eu fiz uma postagem listando as seguintes expressões:

  • De boa na lagoa
  • Suave na nave
  • Sussa na montanha-russa

Vários outros amigos comentaram exemplos de expressões similares: (eu reordenei os comentários pra deixar numa ordem que me fizesse sentido)

  • Sereno no veneno
  • De leve na neve
  • Beleza na represa
  • De boa na canoa (porque a lagoa tá fria lol)
  • Tranqüilo no mamilo
  • Susse no musse
  • Na manha da aranha
  • Tranqüilo como esquilo
  • Tranqüilo como um grilo
  • Manso como um ganso

Estás fixe ou vais pra Penixe?

Isso na verdade não foi uma postagem minha. Pode ser aberta aqui:

https://www.facebook.com/excelentesmemes/posts/911722429008338

Denovo, eu só quero manter registrado esses joguinhos de palavras. Nesse caso, esse é bem PTPT lol. Vou escrever aqui os exemplos (esses eu não faço idéia se alguém de fato usa – eu quero crer que não):

  • Estás fixe ou vais pra Penixe?
  • (um amigo me marcou dizendo): Tudo certinho, ou vais para o Minho?
  • (no que eu respondi, através duma dica dele): Tás de boa ou vais pra Lisboa?

Os comentários por lá são demais:

  • Estás com a Larica ou vais para a Caparica?
  • Estás bem ou vais para Belém?
  • Tás no degredo ou vais para o Moledo?
  • Tudo porreiro ou vais para o Barreiro?
  • Tudo legal ou vais para o Tramagal?

Lol… eu nem sei se os que eu registrei aqui fazem sequer sentido.

Evolução dos alfabetos

Um amigo uma vez me marcou nesta imagem, que eu acho demais e que eu gostaria de ter acesso no futuro de uma forma fácil. Assim, deixo um dos links em que eu a encontrei (com sorte, esse link não vai sumir tão fácil, já que é do 9gag):

https://9gag.com/gag/a1o1yrD

Pessoas com depressão usam língua de uma forma diferente

Esse semestre eu dei uma aula sobre Lingüística Computacional, e em uma das aulas sobre Lingüística de Corpus a gente falou sobre um artigo de uns certos pesquisadores espanhóis em que eles pediram para que adolescentes com e sem um certo transtorno social escrevessem um certo texto descrevendo como eles se sentem em certas situações. Os adolescentes com esse transtorno aí passaram por um tratamento e foram classificados entre “curados” e “não-curados” (eu to simplificando um pouco a história) e aí escreveram denovo um texto descrevendo as mesmas situações.

Os pesquisadores, no artigo, perceberam que os adolescentes curados escreveram mais parecido com o adolescentes que não tinham o transtorno, e que os adolescentes que ainda tinham os sintomas usavam certos tipos de palavras de forma diferente dos que não tinham mais. No artigo, os pesquisadores sugeriam que essas diferenças poderiam ser usadas como um complemento na hora de diagnosticar o certo transtorno.

Por que eu to dizendo isso? Porque uma certa outra linha de pesquisa obteve resultados similares com depressão:

https://theconversation.com/people-with-depression-use-language-differently-heres-how-to-spot-it-90877?fbclid=IwAR0_Me2VcqGHSk2ftHgIVTWVMeSY4HPpVV-zqZV2Hb3n4R1HJx60qqk0azs

Eu postara isso no Facebook um bom tempo atrás, e agora tendo encontrado essa postagem fiquei pensando que isso certamente deveria aparecer na próxima vez que eu desse essa aula de Lingüística Computacional (digo, se eu o fizer).

Concluindo

Como o próprio nome dessa postagem diz, essa postagem foi um “backup lingüístico”. Com ela, eu finalmente posso deletar meu Facebook.

Notas de rodapé

  1. Eu teorizo que tenha a ver com uma página antiga chamada “kibe loco” que postava coisas engraçadas na internet 

Confissão de Viadage

Pois bem… acontece que a primeira postagem desse blog não está no blog, mas num arquivo em .pdf. É um texto sério (apesar de haverem dito que o nome não o parece), com direito até mesmo a nota de rodapé. Com ele, eu começo 2019 dando um grande passo numa direção em que eu venho andando desde Abril de 2015, quando comecei a aceitar o fato de que, sim, sou gay, e tenho de lidar com isso.

No texto, houve muito que eu quis dizer; mas que achei prudente deixar para uma próxima publicação. Com sorte, ele não ficou longo demais, a ponto de ninguém ler. Com sorte, haverá algum público que o lerá e concordará comigo.

Clique aqui para acessar o texto