Quarentena e Donkey Kong Country 2

Estamos em Março de 2020, e o coronavirus se tornou aquilo sobre que todo mundo fala o tempo todo, nas rádios, nos podcasts, na TV, no Youtube, nas notícias, e na vida real. No momento, existem 53340 casos registrados na Alemanha (nos últimos dois dias ela registrou na faixa de 6000 casos por dia) e 3477 casos registrados no Brasil (nos últimos dias os casos no Brasil meio que estabilizaram, mas isso é provavelmente um artefato de que o Brasil só tá testando casos mais graves). Inclusive ouvi dizer que a UFRGS pretende começar a testar bastante nos próximos dias, e aí a gente deve talvez ver o número de casos em PoA explodir. Apesar de tudo, o nosso presidente, preso a uma ideologia absurda, quer pregar que isso é só uma gripezinha ou resfriadinho.

Bom… nesse meio tempo, eu venho ficando em casa (porque, bem, felizmente, eu posso, porque minha ocupação não precisa de nada além do meu próprio computador). Criei um “ambiente de trabalho” no meu quarto, e venho tentando fazer aquilo que tenho que fazer. Infelizmente, a minha produtividade (como é normal pra todo mundo que não tá acostumado com uma nova rotina) caiu. Assim, eu comecei a fazer umas “outras coisas”: aprender japonês, ler um livro, assistir um animê ou jogar Donkey Kong Country 2.

Donkey Kong Country 2 é um desses jogos que eu termino numa sentada. É um jogo fácil de virar. Eu já virei tantas vezes que nunca é um desafio ir até o final. Não sou o bonzão que faz speedrun, mas jogo benzinho até. O que eu nunca tinha percebido (e que comecei a notar agora, enquanto jogava) é como o jogo introduz em cada fase uma mecânica nova, um detalhezinho novo que torna o jogo mais divertido e interessante. Tipo… o jogo inteiro é assim: literalmente cada fase introduz uma idéia nova. Deixa eu mostrar o que eu quero dizer.

A primeira fase começa num barco, e, bem, no começo, tudo se desenvolve de uma forma muito parecido com o que é descrito nesse video aqui:

Deixa eu tentar explicar o video sem fazer o leitor investir (e não perder! porque o video é maravilhoso) 19min de sua vida: o próprio jogo ensina ao jogador o que fazer e como o jogo funciona. Por exemplo,

Por exemplo, a primeira fase começa bem à esquerda e, notando que é impossível ir pra esquerda, o jogador tenta ir pra direita. E aí ele vê uma porta. E se ele tenta entrar na porta ele descobre que certas portas podem ser acessadas. E dentro da nova sala que aparece tem uma vida; mas a vida não tá próxima ao chão… então o jogador acaba apertando alguns botões e descobrindo que se pode pular com B. Aí quando ele sai da porta, encontra bananas e vê que elas podem ser coletadas. E logo depois ele encontra um ratinho e, se não faz nada, ele morre, aprendendo que tem um conjunto limitados de vida. Felizmente, ele tinha acabado de encontrar uma vida, então tudo bem. Quando ele encontra o rato denovo, ele agora pode tentar pular sobre o rato, descobrindo que isso o mata. Imediatamente depois rato ele encontra um barril, de onde um som de macaco vem, indicando que provavelmente seja possível fazer algo com o barril. Mas até agora a única coisa que ele sabia fazer era pular. Se o jogador tentar o Y ele pode descobrir que dá pra pegar o barril… e quando ele o solta, ele descobre que no barril tinha um outro personagem. A fase inteira funciona assim. De fato, mais pro fim da fase, o jogador encontra a letra “A” desenha em bananas, junto com uma moeda que fica muito alta para pegar com o pulo. Quando o jogador aperta A, ele descobre que um dos macaquinhos pode subir na cacunda do outro, e dessa forma também é possível atirar os macacos mais ao alto. Tudo maravilhosamente pensado pra tornar o jogo fácil de aprender, mas ainda desafiante.

MUITA coisa é introduzida nessa primeira fase: as letras “K”, “O”, “N” e “G”, que, quando coletadas (nessa fase é super fácil coletá-las) te dão uma vida; o barril que “salva” o meio da fase, o rinoceronte (cujo nome é Rambi) como um “amiguinho”, junto do qual aparece a letra “A” novamente desenhada em bananas (indicando que ele tem um “poder especial” quando se segura o A), uma seta em bananas apontando para uma porta fechada, dando a entender que tem algo ali que precisa ser “desvendado” – o que interessantemente e não por acaso acaba introduzindo os “bônus” do jogo). a moeda DK bem à vista pra pegar, a placa indicando que o rinoceronte não pode passar dali, e, finalmente, o fim da fase (meio análogo ao primeiro Mario).

Mas pra mim o que torna essa discussão interessante é o que se encontra a partir da segunda fase. Na segunda fase, logo no começo, aparecem cordas nas quais os macacos podem trepar.

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Além disso, lá pelo meio da fase, aparece pela primeira vez uma bola de canhão, e, logo depois, o canhão, meio que sugerindo que se pode pôr a bola de canhão no canhão.

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Aí vem a terceira fase, Gangplank Galley. A essa altura, o jogador já sabe que existem bônus espalhados pelas fases, e que é bom explorar. Então fica fácil adivinhar que deve ter um em cima dos barris no começo da fase. E é aqui que o jogo introduz as abelhas, em que não se pode tocar, e, especialmente, a abelha vermelha, que não morre de forma alguma.

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O jogo não pára por aí: agora tem jacarés que pulam! E, mais pra frente, pra pegar o K, o jogador encontra pela primeira vez um gancho. A fase inteira, aliás, a partir dali, passa a conter ganchos em todo o lugar. Ela segue então introduzindo o jacaré maromba, que não morre com “ataques comuns”, e o barril que deixa o jogador invencível por alguns segundos. Pra terminar, o jogador finalmente percebe, ao fim da fase, que o sol foi se pondo… um detalhe que só surge aí.

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Aí vem a quarta fase, onde o jogador entra pela primeira vez numa “fase de água”. É claro, todos os inimigos são novos aqui, e é engraçado ver como a piranha (que te ataca quando tu chega perto) vem beeeem devagar, dando tempo do jogador aprender o que ela faz. Mais pro fim do jogo ela fica bem mais rápida, mas o jogador nem nota, porque agora já tá acostumado com o conceito. Surge aqui, também, o Enguarde, o peixe espada. Agora o jogador já sabe que, ao encontrar uma caixa, deve haver um animal lá dentro. É óbvio o que fazer.

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Nesse ponto, já ficou claro que cada fase introduz uma mecânica nova. O que eu acho genial é que literalmente o jogo inteiro é assim. A quinta fase introduz a Rattly (uma cobra), e, no exato momento em que o A é preciso, novamente surgem bananas formando essa letra, como que avisando ao jogador o que se deve fazer. Aqui também surge a abelha amarela, próxima de uma caixa, e impedindo a passagem a um cacho de bananas (sugerindo que esse tipo de abelha talvez se possa matar); e, quando a cigarra surge, logo depois, têm algumas bananas sobre ela, basicamente pedindo ao jogador que se jogue sobre ela.

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Aí vem o chefão, o jogador vence, surge o mapa do mundo, e o jogador vai pra segunda área, Crocodile Cauldron, onde as fases têm um tema bem diferente. Novamente, novas idéias. Primeiro, surgem cabeças verdes de crocodilo no chão, sobre que o jogador tem que pular. Mas daí, vêm as marroms, que são molas…

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Entre a introdução de um e de outro surge um novo inimigo: um inimigo que só se pode matar pulando em cima (usar Y nele não funciona)…

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E logo vem mais um amigo: a Squitter (a aranha), acompanhada ambos da letra Y (que ataca), e da letra A (que cria uma teia sobre a qual é possível caminhar).

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Na próxima fase, barris que só podem ser pegos ou pela Dixie ou pelo Diddy:

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E barris de TNT, que quando explodem têm um certo range de dano:

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E um inimigo que atira barris. Olha só que genial: tem um barril DK (desses que tem os macacos dentro) lá no alto, e o inimigo que atira barris atirando barris logo embaixo, sugerindo que seja possível pular em cima dos barris pra pegar o macaco!

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E, mais pra frente, um novo “abutre” inimigo:

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O louco é que, depois que uma certa mecânica é introduzida, ela pode aparecer denovo em outras fases. É o que ocorre na próxima fase, Lava Lagoon, que é como a primeira fase da água, só que com um twist: a água agora é lava, e as próprias bananas indicam ao jogador que ele provavelmente pular sobre a foca pra tornar a lava água denovo.

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Uma coisa que eu acho demais é como as novas mecânicas sempre são introduzidas num lugar “fácil”, e depois aparecem denovo em momentos mais difíceis. Na primeira vez que a foca aparece, o jogador tem todo o tempo do mundo pra decidir pular sobre a foca ou não. Mas quando ele entra na água, fica claro que ele deveria correr pra chegar ao outro lado antes que a água vire lava denovo. Nessa fase também surge um novo inimigo: um peixe que infla. Somente mais pra frente, na fase do peixe luz (no terceiro “mundo”), é que esse peixe muda de mecânica e explode (infla demais), soltando espinhos dos quais o jogador tem que desviar.

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Aí vem uma das minhas fases favoritas desse jogo: Red-Hot Ride. A nova mecânica é muito simples: a lava libera vapor, e o jogador tem que subir sobre uns balões que flutuam e sobem sempre que encontram esses vapores:

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Logo antes, porém, o jogo introduz um inimigo diferente. Já na primeira fase existia um jacaré que ficava dentro de um barril. Agora o jogo varia essa mecânica criando um novo inimigo trombadinha igual àquele, mas que, quando pecha no jogador, remove um cacho de bananas dele. Essa idéia vai ser reutilizada por todo o jogo: mais pra frente surge um jacaré dentro de um barril de TNT (que causa dano quando tromba no jogador) e, bem no fim do jogo, um que rouba vidas!).

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Aliás, o DK dessa fase tá num lugar muito bem pensado. O jogador tem que chegar no seguinte lugar segurando um barril, pra poder atirar na abelha de cima (e aí subir no outro balão e jogar o outro macaquinho pra cima):

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Mas logo antes o jogo põe umas mariposas vindo contra o balão do jogador, de forma que pular em cima da mariposa o faria perder o barril. Ou seja, o jogador tem que vir com o balão meio baixo, ou a mariposa o fará perder o barril………. mas não muito baixo: tem um outra mariposa passando por baixo, apresentando o mesmo tipo de perigo.

Próxima fase… e duas novas mecânicas surgem já no começo do jogo. Primeiro, um novo inimigo:

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Segundo, um barril “canhão” que fica girando e espera até que o jogador aperte B pra atirar na direção em que ele estiver no momento. (agora que eu to escrevendo isso eu fiquei pensando: é inacreditável que essa mecânica, tão tão comum nesse jogo, só tenha aparecido pela primeira vez aqui, já no fim do segundo mundo! Até voltei no jogo pra ver se encontrava esse tipo de barril e não consegui encontrar nada =O)

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E, mais pro meio da fase, o papagaio Squawks (o nome da fase é justamente Squawks Shaft – o que poderia ser interpretado de forma bem maliciosa em inglês :v). E, claro, como era de se esperar, veio junto com a letra Y formada em bananas, indicando ao jogador o que fazer.

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Termina-se o segundo mundo, e, bom, fase nova, mecânica nova. Já no começo, num lugar seguro onde o jogador possa aprender a mecânica sem medo de morrer, ele encontra um barril canhão que fica girando com um número de segundos. Se o número chega a zero, o canhão atira por si próprio.

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Logo surge também um novo inimigo: um fantasma que atira caixas de madeira (ou às vezes outras coisas, dependendo da situação)

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Uma coisa que eu acho muito louca dessa fase é que, em certo momento, o jogo queria que o jogador não fosse capaz de voltar mais, se passasse de uma certa parte da fase. O que eles fizeram, puseram barris nessa configuração, onde o barril da direita te atira bem forte pra direita, mas o da esquerda te permite fazer aquela “voltinha” ali que as bananas estão indicando:

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Bom… o jogo continua, introduzindo uma nova idéia em cada fase. Eu nunca tinha jogado esse jogo com essa perspectiva, e to achando demais como isso permanece ocorrendo em literalmente cada fase nova. Essa “nova” perspectiva me fez perceber a quantidade imensa de trabalho que os desenvolvedores puseram em cada detalhezinho desse jogo. Eu poderia continuar comentando cada fase…

  • A fase 13 introduz o peixe luz (cujo nome eu não sei) como amigo, mostra a mecânica nova do peixe que infla (que agora explode), e introduz um novo inimigo: o porco-espinho, que é análogo ao jacaré “cachorro”, em que, enquanto aquele não se podia atacar com Y, esse não se pode pular em cima (porque, afinal, ele tem espinhos).

  • A fase 14 introduz um inimigo com espadas, que te ataca; e um outro inimigo que fica girando e não se pode pular sobre ele enquanto ele o estiver fazendo, porque se não ele te joga pra cima (deve-se esperar até ele ficar tonto). E ainda introduz uns “postes” (que são uma planta) onde os macacos podem trepar. E mais ainda: tem umas cabeças de jacaré (dessas em que se podia caminhar, da primeira fase do segundo mundo) que agora que só aparecem quando o jogador pula próximo a um certo barril onde tem um jacaré desenhado.

  • A fase 15 é a primeira vez em que o jogador, em vez de encontrar um dos amiguinhos, se torna um deles. O jogador joga a fase inteira como Rattly (a cobra). Também os jacarés que pulam agora têm uma variação, que anda pra frente.

  • A fase 16 tem uma piranha roxa, que passa a fase inteira te seguindo, e tal logo o jogador caia na água ela já te ataca.

  • A fase 17 (Brambles Blast – conhecida por sua música), bom, é a primeira que aparece nesse tipo novo de cenário (que depois é o cenário de várias outras fases, onde o chão e o teto causam dano. A fase inteira é um “labirinto” de barris que alternam as direções para as quais apontam.

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Daí vem a primeira fase da “colmeira”, e depois vem o parque de diversões, com carrinhos, e daí vem a corrida com a abelha que será o chefão do quarto mundo, e aí vem o mundo dos fantasmas, com cordas que desaparecem, e a fase com vento, e a fase que tem o papagaio roxo, que não sobe (o nome da fase é “Parrot-chute panic”, um trocadilho entre papagaio e paraquedas em inglês). E a fase da aranha (em que o novo inimigo com espadas, que agora levanta as espadas imediatamente do chão na primeira vez que te ataca, é introduzido; e também um jacaré pulante novo, que espera até o jogador chegar perto; e em que não tu te transforma em aranha e passa boa parte da fase sem chão. E assim por diante.

Enfim… que jogo!

Bandeiras

Quem me conhece deve já ter uma idéia de que eu tenho sempre um monte de idéias, poucas das quais eu de verdade ponho em prática. Eu tendo a ser o cara sonhador. Quem acredita nas astrologias diria que isso é porque eu sou sagitariano. Eu, que não acredito, tenho que aceitar que pelo menos o estereótipo combina bem com a minha personalidade.

Por causa de uma das minhas idéias de ultimamente, me interessei um pouco por símbolos. Eu gosto de pensar que símbolos têm o poder de incutir nas mentes das pessoas a crença em “sonhos” (esperanças, desejos, interesses, idéias) em que elas não creriam se eles não estivessem lá. Eles parecem criar identidades, e, ao mesmo tempo, criar oposições entre grupos, e às vezes têm tanto poder que tornam as pessoas irracionais e dispostas à barbárie. Um exemplo simples é a foice-e-o-martelo, que levou milhões de pessoas à morte em nome de um ideal de “igualdade” que nunca foi alcançado. A suástica seria o exemplo do extremo oposto (a qual, sinistramente, não conseguiu alcançar o número de mortes da foice-e-o-martelo, tamanho o seu poder de destruição).

Às vezes, o objetivo de alguns símbolos é passar sinais que só significam algo para uma certa população. O exemplo óbvio é o dos maçons, com suas assinaturas e seus apertos de mão (que eu nem sei se são verdade ou se são só coisa que as pessoas dizem); mas eles não são os únicos. Por exemplo, viados nos EUA em São Francisco nos anos 70 (e ainda hoje, aparentemente… não sei) usavam lenços de certas cores no bolso, os quais indicavam as preferências sexuais do usuário. No caso, a idéia era comunicar sem ser compreendido por todo mundo: quem tava nessa população compreendia o que era pra compreender; quem não tava não fazia idéia do que tava ocorrendo. (outro exemplo clássico é o do brinco na orelha direita, que significava “viado” – e que acho que estigmatizou o brinco pra homens durante muito tempo.) Eu mesmo, hoje em dia, ainda que todos saibam da minha viadagem, frequentemente uso uma pulseira (tecida por uma amiga) com as cores do arco-íris: todo viado percebe de cara, e todo não-viado nem nota. O objetivo é tornar mais fácil levantar o assunto (pra eu poder deixar claro que sim, é o caso, sou viado): normalmente eu sou o tipo de pessoa cuja viadagem causa surpresa, e isso é meio frustrante (eu posso falar mais sobre o porquê de ser frustrante em uma outra postagem; esse não é o objetivo dessa aqui).

Outras vezes, porém, o objetivo do símbolo é que ele seja reconhecido imediatamente. As bandeiras me parecem o exemplo-mor desse tipo de coisa. Tão logo eu veja um verde, vermelho e amarelo (nessa ordem, mas às vezes inclusive fora dela), eu imediatamente penso no Rio Grande do Sul. Fim de semana passada estive em Bérgamo pra visitar uma amiga que estava por lá. Quando caminhando, me deparei com a seguinte cabine telefônica:

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Tive que tirar uma foto. É quase como se me estivesse mandando pensar no Rio Grande.

No caso, a minha idéia é fazer uma bandeira. Pra que e por que será explicado numa postagem posterior. Mas por agora quero falar do que descobri até agora. O nome da “ciência” (entre aspas porque eu não faço idéia de se existe algum estudo empírico sobre o assunto) que estuda bandeiras é Vexilologia, e, muito ligada a ela está a “arte” de criação de bandeiras, a Vexilografia. Eu escutei pela primeira vez sobre o assunto na seguinte palestra do TED, há alguns anos:

Na palestra, esse cara fala de um conjunto de “regras” da Vexilografia, que são usadas pra construir bandeiras “boas”. As cinco regras eram as seguintes (traduzindo do video):

  1. A bandeira tem de ser simples
  2. Use um simbolismo que tenha significado
  3. Use 2 ou 3 cores básicas (vermelho, branco, preto, amarelo, azul, …)
  4. Não use letras ou selos [ou brasões]
  5. Seja distintivo (ou seja relacionado)

De lá pra cá, eu sempre tive na cabeça sobre como os três X de Amsterdão são populares na cidade. A gente os vê em todo lugar, nas paredes, nas lojas, etc. Algo similar, de fato, ocorre com a bandeira do RS. Note-se: a bandeira sim contém um brasão; mas ele não tem importância, não é normalmente usado. O que importam são as cores. Dá uma olhada nas seguintes imagens (que eu aleatoriamente achei na internet, e explicam o que eu quero dizer):

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Assim, ainda que a bandeira tenha um brasão (que, diga-se de passagem, contém a bandeira dentro dele próprio), a bandeira é, como o Roman Mars sugere na palestra dele, “fácil de desenhar pra uma criança de 5 anos”.

Esse é também o caso do Brasil: a bandeira tem a idéia genial de representar o céu do Rio de Janeiro – então capital do Brasil – no dia da proclamação da república, mas tanto o lema positivista (Ordem e Progresso) quanto as estrelas são detalhes, e o que importa quando a gente desenha a bandeira é mesmo o verde, o amarelo e o azul (e o risquinho branco no meio).

Sobre o número de cores

Como se pode ver no caso brasileiro, existem sim bandeiras boas que contém mais de 2 ou 3 cores (a do Brasil tem 4). Por exemplo, a bandeira da Antígua e Barbuda tem 5 (o nome desse triângulo que corta a bandeira é “Chevron”, como o nome do carro – por isso que o logo deles, creio eu, é justamente um negócio triangular):

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A Guiana também tem cinco cores:

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E também a África do Sul:

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Muitas outras bandeiras boas têm quatro, como é o caso da Índia, da Jordânia, do Kiribati e do Lesotho:

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Uma outra coisa que eu aprendi desse video tem mais a ver com Heráldica (que é o estudo o estudo de brasões) do que com bandeiras, mas aparentemente é útil saber. Se eu entendi a idéia bem, as cores branca e amarela representam metais, e as outras cores são simplesmente cores. Aí, a idéia é que não se deve (ou, pelo menos, a heráldica inglesa sugere que se evite) pôr cor sobre cor sem uma separação por metais. Por isso é que aquele branco e amarelo nas bandeiras da Guiana e da África do Sul parecem tão agradáveis.

Brasões e imagens complicadas

Uma coisa importante a se comentar é sobre o uso de imagens complicadas. Como já mencionado anteriormente, o uso de brasões em geral é desencorajado, porque torna o desenho da bandeira complicado. A bandeira do Haiti é um exemplo do que não se deve fazer: (Quase parece que alguém simplemente pôs uma imagem .png centralizada sobre uma bandeira azul e vermelha.)

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Mas também é verdade que várias bandeiras com brasão nem são lá tão terríveis. Por exemplo, bandeiras como a do Equador e da Bolívia (que também incluem um brasão recursivo com a própria bandeira),

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ou as bandeiras do México e da Espanha

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contém brasões interessantes que as tornam facilmente reconhecíveis, ainda que complicados. A minha opinião é de que o brasão é irrelevante o suficiente pra fazer com que o importante seja somente que tem uma imagem no centro (apesar de que, bem, especialmente no caso equatoriano, fica difícil diferenciar da Venezuela e da Colômbia quando a bandeira não tá voando ao vento).

Por outro lado, existem casos em que a bandeira tem um desenho, e o desenho é bem menos complicado que o de um brasão. Nesses casos, o desenho, ainda que complicado, parece funcionar como um símbolo que identifica o país independente das cores da bandeira. O símbolo pode, daí, até ser usado sozinho, sem a necessidade de que as cores da bandeira estejam presentes. Por exemplo, olha o que é a bandeira de Portugal ou a do Irão:

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E a mesma coisa de pode dizer da Índia (acima), da Angola, da Albânia…

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… da Argentina, do Uruguai…

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… de Hong Kong e do Kirguistão.

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Características freqüentes

Tem só mais uma coisa que eu queria comentar. Tem várias características que são comuns em muitas bandeiras que, por justamente serem comuns, ganharam certos nomes. Por exemplo, países escandinavos tendem a usar a Cruz Nórdica em suas bandeiras (ainda assim, no link tem vários exemplos de bandeiras com a Cruz Nórdica em outros lugares do mundo, inclusive vários no Brasil), o que originalmente era uma menção ao Cristianismo. E.g., a bandeira a seguir é a da Noruega:

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Da mesma forma, países do sul frequentemente incluem o Cruzeiro do Sul como uma referência ao próprio sul. Os exemplos óbvios aqui são o Brasil e a Austrália:

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Aquela mini-bandeira do Reino Unido na bandeira da Austrália é chamada de “Insígnia Britânica”, e aparece em um monte de outras bandeiras. O exemplo mais óbvio além da australiana é a da Nova Zelândia:

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De fato, muitas bandeiras têm alguma coisa naquele cantinho onde a Insígnia Britânica normalmente fica. Aquele lugar é normalmente chamado de “Cantão”, e os primeiros exemplos que me vêm à mente são a Grécia, os EUA e o Chile:

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Uma barra horizontal maior no centro da bandeira é frequentemente chamada de “Faixa Espanhola”, e aparece em várias bandeiras do mundo, como a da Espanha (ali emcima) ou a do Líbano (que é pra mim um exemplo bem legal):

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E, é claro, tem o causo oposto, que é uma faixa vertical no centro, a qual é normalmente chamada de “Pala Canadiana” (claramente, esse nome foi uma tradução de Portugal – os portugueses chamam os canadenses de canadianos lol). Ela aparece (obviamente) na bandeira do Canadá (e em várias bandeiras de regiões do Canadá)…

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… mas também aparece em alguns (poucos) outros lugares, como a bandeira de São Vicente e Granadinas:

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Finalmente, bandeiras contendo três cores são chamadas de “tricolores” (dããã); e bandeiras contendo três faixas são chamadas de “tribanda”.

Para saber mais

Bom… era isso o que eu tinha pra dizer. Nessa busca por conhecimentos sobre bandeiras, foi bastante interessante buscar inspiração nas bandeiras boas que já existem, sejam elas de países ou não. Um tempo atrás, parece que houve gente querendo trocar a bandeira da Austrália, e eu fiquei abismado com como a bandeira que “ganhou” (chamada de Southern Horizon) evoca os símbolos brasileiros:

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Pra quem queira saber mais sobre bandeiras, esse “desenhador de bandeiras” foi bastante útil pra ver várias das já existentes. Um lugar onde dá pra buscar mais informações é o site da Associação Vexilológica da América do Norte (no link, tem um relatório com várias sugestões sobre o desenho de bandeiras). Tem também um subreddit sobre vexilologia que pareceu bem movimentado (foi daqui que eu tirei a piada/idéia de que o brasão da bandeira do Haiti é um .png), onde as pessoas criam bandeiras sobre vários lugares. Por fim, fica aqui um vídeo que eu achei com as similaridades de várias bandeiras:

Finalmente, tem uma tal de Federação Internacional das Associações Vexilológicas que pareceu interessante. De fato, eu gostei da bandeira deles =)

Politicagens alemoas, e as Universidades no Rio Grande do Sul

Ressalva

Toda a historinha que conto no “contexto” não é a opinião ou palavra de quem quer que seja: desde que surgiu essa história, escutei altos boatos de toda sorte de gente sobre todos os tipos de coisas, e o que eu to dizendo é somente a “minha versão” dessa história que, de verdade, ainda vai dar bastante pano pra manga.

Contexto

Há algum tempo surgiu um novo alvoroço aqui na Universidade de Kaiserslautern: a nossa Universidade há de se unir à Universidade de Landau. A minha orientadora é a decana das Ciências Sociais e faz parte do Senado da Universidade, e (aparentemente, por isso) acabou tendo muitas reuniões desde então pra decidir o que isso significaria. A decisão surgiu de um tal Ministro da Educação (do estado da Renânia-Palatinado) e gerou altos desconfortos politiqueiros entre Kaiserslautern e Landau.

É que, pra falar a verdade, o que (compreendo que) se queria inicialmente era fechar a Uni de Landau. O estado da Renânia-Palatinado tem 5 Universidades: Kaiserslautern, Trier, Mainz, Koblenz e Landau. Pra um estado pequeno como esse, faz pouco sentido que se gaste tanto dinheiro com 5 Universidades. Mas quando se falou em fechar a Universidade, dizem que um certo político relativamente poderoso, originário da cidade, moveu pauzinhos e garantiu que nada ocorreria. Isso é o que eu escutei, pelo menos.

Na verdade, Landau acabou sendo mergida à Universidade de Koblenz, e desde há alguns anos a união passou a se chamar de “Universidade de Koblenz e Landau”. O problema é que Koblenz fica a 134km de Landau, literalmente no extremo oposto do estado, o que acabou gerando problemas na administração. Hoje, a administração não fica nem em Koblenz nem em Landau, mas em Mainz, que é mais ou menos meio caminho entre as duas cidades.

Como a mescla das duas Universidades foi forçada, dizem (denovo, é o que eu escuto) que a relação entre os dois “campi” não é boa. Essa seria, daí, a razão pra “trocar” Koblenz com Kaiserslautern. Kaiserslautern não gosta da idéia, argumentando que o “nível” de Kaiserslautern é melhor que o de Landau (Kaiserslautern produz mais pesquisa, tem mais cooperações internacionais, etc.), e que “abrigar” Landau seria muito gasto. Dentro da Alemanha existe um certo prestígio em se ter o nome “Technische” na Universidade, e um dos pontos importantes nessa discussão é justamente “qual o nome que a nova Uni vai ter”.

Dos números da Renânia Palatinado

Quando surgiu essa história, eu fiquei surpreso de ouvir que a Renânia Palatinado (esse é o nome do estado onde eu moro. Em alemão é “Rheinland Pfalz”, mas acho que é notável que eu gosto de traduções) tem “Universidade demais”. Só cinco? Então resolvi comparar com um outro estado que eu conheço bem: o Rio Grande do Sul. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi comparar as duas populações, e ver se o número de Universidades no RS é proporcional. O problema, porém, foi definir “Universidade”. Por agora, vou me reter às federais: me pareceu justo contar assim, porque, como eu vou mencionar mais pra baixo, existem outras instituições de ensino superior por aqui também.

(Ideal seria comparar, nas duas populações, a quantidade de gente no ensino superior, mas, ainda que tenha encontrado um site que pareceu promissor, não consegui encontrar esse número na Renânia Palatinado. No caso do RS, esse número é difícil de encontrar porque eu teria que decidir “o que conta como instituição de ensino superior”, já que hoje em dia tem uns colejões contra os quais eu tenho certa ressalva e preferiria não incluir na conta. Ainda assim, eu recomendo que se dê uma olhada nas tabelas aqui.)

  Renânia Palatinado Rio Grande do Sul
População 4.05M 11.33M
PIB €124 Bi RS423 Bi
Universidades 5 (4?) 6
    Fonte: Wikipedia

Outra coisa que me pareceu interessante comparar era PIB. É de se esperar que o estado aqui tenha mais recursos que o RS pra investir em educação superior. Os números na table mostram que os PIBs são mais ou menos o mesmo (guardadas as devidas flutuações atuais das moedas), apesar da população gaúcha ser quase três vezes a da Renânia Palatinado.

Aí eu pensei em verificar o tamanho dessas Universidades. Digo, se as federais gaúchas são poucas mas absorbem uma quantidade enorme de gente, então comparar o número de pessoas não faz sentido. Essa foi justamente a impressão que eu tive:

Universidade População
Universidade de Trier 13751
Universidade de Kaiserslautern 14869
Universidade de Koblenz e Landau 16479
Universidade de Mainz 32630
Total 77729
  Fonte: Wikipédia
Universidade População
Universidade Federal de Pelotas 9679
Fundação Universidade Federal do Rio Grande 12432
Universidade Federal do Pampa 13000
Universidade Federal de Santa Maria 28307
Universidade Federal do Rio Grande do Sul 58001 (2014)
Universidade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre ?
Total 121419
  Fonte: Wikipédia

O meu próximo interesse foi no orçamento das Universidades. Infelizmente, porém, as informações pra esse tipo de coisa são meio nebulosas. Os dados que eu encontro na Wikipédia das Universidades brasileiras aparentemente incluem bem mais do que o orçamento anual (somente pra FURG eu achei essa informação). No caso das Universidades alemoas, o orçamento inclui dinheiro de projetos bancados pela iniciativa privada. Ainda assim, pelo menos a Universidade de Mainz (a maior do estado) tinha essa informação: ela recebe €347M do governo em repasses. Se eu levar em consideração o preço atual do Euro, é interessante notar que nem a soma de todas as federais gaúchas chega a esse valor.

Tá, mas, e as outras Universidades?

Quando eu comecei a vasculhar sobre isso, eu só queria saber se é realmente verdade que a Renânia Palatinado tem só quatro Universidades. Acontece que não é bem assim. Um mapinha com todas as Unis do estado está disponível aqui. Também é interessante dar uma olhada na categoria de Universidades na Renânia Palatinado, na Wikipédia. Eu achei que essa era uma boa forma de comparar o número de Universidades “de verdade” no RS com as daqui. Quero dizer, a categoria de Universidades no RS, na Wikipédia tem 19 instituições. A categoria da Renânia Palatinado tem 17 instituições (ignore-se o “MindGarage”, que é só um laboratório em Kaiserslautern).

Eu não tenho tempo/saco de olhar as populações denovo, ou tentar estimar orçamentos de todo mundo; mas eu chutaria que a história é a mesma: que a população das instituições brasileiras é maior, simplesmente porque, bem, a gente tem bem mais gente de qualquer forma. Ainda assim, é importante ressaltar que essa é só mais uma variável, e vasculhar mais sobre esses números é algo interessante que certamente valeria a pena.

Conclusão

Tendo dado uma olhada em tudo isso, eu fiquei pensando: báá… ainda que a gente seja um país “pobre”, eu acho que, pelo menos em se tratando desses números, a gente não tá tão mal. Estamos perdendo pra região onde eu tô? Estamos. Mas não acho que é uma perda muito feia. Isso corrobora com a minha constante impressão de que o Brasil é beeem melhor do que acredita ser, e que em grande parte o que a gente precisa mudar é somente a atitude que a gente tem sobre como as coisas funcionam no país. É claro que a nossa crise política/financeira, com o dito “contingenciamento” das verbas pra educação superior, não ajudou; mas o meu eu sonhador talvez me faça acreditar que talvez um dia a gente consiga fazer as coisas melorarem.

Ineficiência, perfeccionismo brasileiro e ética na Psicologia

(me foi dito que se traduz “eye-tracking” como “rastreamento ocular” em PTBR. Assim, sigo essa terminologia nessa publicação)

Contexto

Em Agosto eu fui à Conferência Européia do Movimento Ocular (ECEM, na sigla em inglês), uma conferência bienal que ocorreu em Alicante, na Espanha. Essa conferência é a maior conferência sobre rastreamento ocular da Europa, e eu fui lá pra apresentar o resultado de um trabalho de meses tentando analisar os dados de um experimento que eu rodei, no qual eu usei um rastreador ocular. (no caso, o poster que apresentei era sobre algoritmos pra tentar corrigir os dados – se tudo der certo, vai sair um artigo logo sobre isso)

Na conferência, conheci três brasileiros, cujos nomes não lembro, mas com quem foi legal conversar sobre como é fazer pesquisa no Brasil. O meu objetivo em especular sobre o assunto era justamente saber como seria a minha vida caso eu resolvesse voltar ao Brasil após o doutorado. Na discussão, eventualmente comentei sobre a burocracia para rodar os experimentos no país, e sobre alguns perrengues em se lidar com o comitê de ética por lá.

Pra quem não sabe, todo experimento psicológico feito com pessoas precisa passar por um comitê de ética, que decide se os dados a serem coletados e o procedimento a ser realizado não fere certos padrões de ética. A idéia seria tentar evitar que, por exemplo, um certo experimento gere algum trauma ou desconforto: o benefício à humanidade em responder a certas perguntas deve ser maior do que o custo moral em que a resposta incorre. Assim, comitês de ética existem no mundo todo, em tudo que é universidade. E, enquanto todo mundo reclame da sua existência como um entrave à realização de seu trabalho (porque demora, e é burocrático, e precisa preencher formulários, e burocracia do diabo), eles são bons. O que é problemático no Brasil não é, portanto, a sua existência. O que é problemática foi o que eu descobri depois…

Perfeccionismo à brasileira

Em Setembro do de 2018, um ano antes do ECEM conferência, eu passei dois meses no Canadá. Meu objetivo por lá era rodar dois experimentos, um dos quais era justamente o que me levou ao ECEM desse ano. Na época, tive que preencher pela primeira vez certos formulários que seriam mandados a um comitê de ética. Como detestasse a burocracia, “reclamei” pra uma amiga, formada em Psicologia, sobre como era chato lidar com aquilo. A reclamação levou a uma conversa sobre o tempo entre a concepção de um experimento e a efetiva realização do mesmo, e sobre como o comitê de ética gerava ainda mais atraso.

É que no meu caso, os experimentos claramente não têm problem algum. Pessoas adultas sentam-se na frente de um computador, calibram o rastreador ocular, e lêem frases (ao todo, 72 frases) na tela. Ao fim de cada frase, elas pressionam a barra de espaço, e o computador mostra uma perguntinha fácil sobre a frase, junto com duas alternativas, que elas respondem pressionando ou X ou M no teclado. As frases não têm conteúdo impróprio (são frases sobre economia/finanças), e as pessoas têm todo o tempo que precisarem pra responder. Elas podem parar o experimento quando quiserem, e podem inclusive ir ao banheiro se quiserem.

A conversa com a minha amiga, porém, me levou a descobrir que, enquanto esse comitê no Canadá era negócio de duas semanas, no Brasil isso é história de quatro-fodendo-meses! (Na minha Universidade, inclusive, se o experimento tem certas características – algumas das quais eu indiquei no parágrafo anterior –, eu nem preciso passar por comitê algum.) Quatro meses!

Mas tá… até então, eu supunha que o problema fosse só a burocracia: no Brasil, deve ter pouca gente pra muita demanda. É normal esperar que nem tudo funcione perfeito por lá. Mas daí eu descobri novas coisas com a conversa em Alicante…

O problema é que os comitês de ética brasileiros (aparentemente) seguem padrões muitíssimo mais restritos que os de qualquer outro lugar no mundo. Padrões que honestamente não fazem absolutamente sentido algum, que tornam o custo de fazer psicolingüística por lá basicamente proibitivos. Deixa eu dar um exemplo. Em qualquer experimento de psicolingüística de qualquer periódico conhecido, na hora de descrever os experimentos, é comum encontrar frases como as seguintes:

Vinte e quatro falantes de espanhol (15 fêmeas) foram pagos para ser participantes ingênuos1 (“Twenty-four native speakers of Spanish (15 female) were paid to be naive participants”, Hartsuiker, R. J., Pickering, M. J., & Veltkamp, E. (2004). Is syntax separate or shared between languages? Cross-linguistic syntactic priming in Spanish-English bilinguals. Psychological science, 15(6), 409-414.)

ou

Quarenta e nove estudantes de graduação da Universidade de Illinois participaram do estudo para [o recebimento de] créditos parciais de curso.2 (“Forty-nine undergraduate students from the University of Illinois participated in the study for partial course credit”, Gagné, C. L., & Shoben, E. J. (1997). Influence of thematic relations on the comprehension of modifier–noun combinations. Journal of experimental psychology: Learning, memory, and cognition, 23(1), 71.)

O que essas frases indicam é que é totalmente comum que duas coisas ocorram em experimentos psicolingüísticos: (1) que pesquisadores dêem uma compensação financeira (i.e., paguem) aos participantes dos estudos; ou que (2) professores façam com que os alunos de suas disciplinas participem de experimentos, sob o pretexto (que eu tomo como perfeitamente aceitável) de que isso lhes ensinará como essas coisas funcionam.

É verdade, é claro, que esse não é o caso sempre. Por exemplo, em muitos artigos não se diz nada sobre o que os participantes receberam em troca de sua participação; e em alguns estudos se deixa explícito que eles eram voluntários. Desse último caso, achei legal exemplificar com um artigo do professor que me recebeu lá no Canadá:

A participação foi completamente voluntária e nenhum [participante] recebeu qualquer recompensa em troca de sua participação (“Participation was fully voluntary and none [of the participants] received any reward in exchange for their participation”, Arppe, A., & Järvikivi, J. (2007). Every method counts: Combining corpus-based and experimental evidence in the study of synonymy. Corpus Linguistics and Linguistic Theory, 3(2), 131-159.)

Mas o que me tirou os butiás dos bolsos3 foi escutar que os comitês de ética no Brasil exigem que a participação seja sempre 100% voluntária, e nunca associada nem a qualquer recompensa nem a uma tarefa de aula. A alegação seria (ou pelo menos isso foi o que me foi dito na conferência) de que isso constituiria “coação” e portanto não seria ético (aos olhos do comitê). Mas na prática o que isso significa é que o custo de arranjar participantes no Brasil é mais alto, e os experimentos demoram mais pra rodar. Da forma como eu vejo, isso infelizmente só contribui pra uma maior burocratização e ineficiência da pesquisa brasileira, e reflete um perfeccionismo que não faz o menor sentido.

Conversando com a minha amiga psicóloga denovo sobre essas coisas, ela me disse que tem gente no Brasil que defende ferrenhamente essas regras dos comitês de ética brasileiros. Eu honestamente acredito que uma das duas seguintes coisas ocorram:

  • As pessoas no Brasil acreditam que essas regras são as regras comuns no mundo todo. Esse é o caso menos pior: é irônico que, num país onde a gente tem sempre a atitude (incorreta, de fato) de que as coisas nunca funcionam, a gente esteja sendo muito mais cuidadoso com a ética nos nossos experimentos do que basicamente qualquer outro país no mundo. Infelizmente, esse cuidado excessivo nos leva à irrelevância, com uma produção científica muito mais restrita do que poderia ser se fosse possível que os professores levassem a massa gigantesca de estudantes a participar dos estudos feitos na própria Universidade.
  • Ou as pessoas no Brasil são só perfeccionistas mesmo. Esse seria o caso realmente difícil de resolver. Em que ganham os comitês de ética brasileiros em ser os mais restritos do mundo?

Conclusão

Essa postagem ficou meio bagunçada, e creio que vai servir como um rant sobre “porque, ainda que eu queira voltar pro Brasil, normalmente fico receoso”. Ao escrevê-la, fiquei pensando que é uma pena que eu ainda não migrei o blog pra outro lugar onde eu possa receber comentários. Ainda assim, se quem quer que me leia (se é que há quem o faça) quiser me mandar uma resposta sobre isso, fico feliz em recebê-la em johncbgamboa@gmail.com .

É claro que, quando eu me refiro a “os comitês de ética”, eu falo de uma massa disforme que talvez inclusive nem seja tão homogênea quanto eu faço parecer. Talvez seja inclusive possível que em outras Universidades tudo seja completamente diferente (as únicas vozes que escutei até agora vieram de PUCs, e é perfeitamente possível que nos outros lugares os comitês sejam mais tris). No mais, pondero esses detalhes ao considerar sobre a minha migração de volta ao Brasil. Seria maravilhoso se eu pudesse realizar experimentos sem ter de lidar com bizarrices locais do tipo das que eu mencionei.

Notas de rodapé

  1. Não sabia como traduzir “naïve participant”. Esses são simplesmente os participantes “normais”, que, não tendo idéia de o que está sendo investigado, foram convidados (ou, nesse caso, pagos) para participar do experimento. 

  2. Mesmo problema com “partial course credits”. Isso significa que algum professor deles lhes deu como tarefa (de alguma cadeira que eles tavam fazendo) que fossem e participassem de um certo número de horas de experimentos. Em geral, isso é bom pro estudante, que aprende sobre como os experimentos funcionam, e é bom pros pesquisadores, que têm acesso mais fácil a participantes para seus experimentos. 

  3. Caso algum não-gaúcho me leia, isso significa “surpreender” 

Um pouco sobre Guaíba

Ultimamente, venho interesssado em “saber um pouco mais” sobre o estado atual da cidade onde cresci. Desde já há algum tempo, quando comparo Kaiserslautern com Guaíba, tenho a sensação de que não há mesmo lá tanta diferença entre uma e outra: que a diferença não está na qualidade potencial que pode ser alcançada pelos seus cidadãos, e sim na menor burocracia, corrupção, politicagem, …, e na violência, que é obviamente muito menor por aqui.

Uns dias atrás, conversando com uma amiga sobre uma potencial volta ao Brasil, comentei que um campeão panamericano de canoagem é de um clube Guaibense. Ela, com sua surpresa, me fez ficar pensando em quantos eventos esportivos ocorrem todo ano na cidade, e quantos atletas da cidade acabam ficando conhecidos no país inteiro. Fui dar uma olhada, e encontrei alguns:

Tá, mas, e daí? Eu acho que esses eventos refletem algo importante: que uma grande parcela da população de Guaíba (ou seja, muitos daqueles que tem a opção de fazê-lo) acaba saindo da cidade em busca de “condições melhores” em outros lugares. Assim, muitos conhecidos meus do tempo de escola hoje vivem em Porto Alegre, ou em São Paulo, ou Blumenau, ou Curitiba. Gente muito boa, com potencial para contribuir pra comunidade local, mas que acaba deixando o lugar, numa “fuga de cérebros” em escala municipal. Um pouco do meu objetivo com essas postagens sobre a cidade tem sido tentar “compensar” sobre a minha própria fuga, e, com sorte, ajudar outros a fazê-lo também.

Hoje, por outro lado, existe uma outra razão por que muitas coisas vêm ocorrendo na cidade: ainda que seja a 20ª cidade do estado em população (no link, lá pelo meio, tem uma lista das 20 cidades mais populosas do estado), o município é o 12º em arrecadação, parcialmente por conta do turismo que vem alimentando a cidade há alguns anos. Me interessa saber mais sobre como esse dinheiro que entra na comunidade está sendo usado, pensar/discutir sobre como ele poderia ser melhor usado (para melhorar a situação da cidade), e sobre o que se poderia fazer para que ele levasse a cidade a uma situação sustentável, onde o dinheiro cresça, e não se perca. Em postagens posteriores, talvez eu fale um pouco mais sobre o que penso sobre essas coisas.